Na cidadezinha onde Chico Brazil morava, havia um senhor cujo apelido era Cabeçudo. Nascera com uma cabeça grande, dessas cuja boina dá pra botar dentro, fácil, fácil, uma dúzia de Laranjas. Mas era um cara pacato, bonachão e paciente. Não gostava, é claro, de ser chamado de Cabeçudo, mas desde os tempos do grupo escolar, tinha um chato que não perdoava. Onde quer que o encontrasse, lhe dava um tapa na cabeça e perguntava:
- Tudo bom, Cabeçudo?
O Cabeçudo, já com seus quarenta e poucos anos, e o cara sempre zombando dele... Um dia, depois do milésimo tapão na sua cabeça, o Cabeçudo meteu a faca no zombeteiro e matou-o na hora.
A família do chato era rica; a do Cabeçudo, pobre. Não houve jeito de encontrar um advogado para defendê-lo, pois o crime tinha muitas testemunhas. Depois de apelarem para advogados do Brasil inteiro, sem sucesso algum, um amigo da família lembrou-se de que Chico Brazil, aquele "negrinho brincalhão" que vivia de porre, era um advogado formado e juramentado, que largara a profissão a fim de ter mais tempo para dedicar-se esbórnia.
Foi difícil para a família aceitar a idéia. "Já pensou - dizia um irmão do réu - o Chico, debochado do jeito que é, chegar cheio de cana no tribunal e esculachar juiz, promotor, júri... Ao invés de dez anos de cadeia meu irmão vai ganhar prisão perpétua!". Outro familiar já defendia, que com a acuidade mental que Chico possuía, poderia, sim ser muito positivo. Amigos de Chico e do "Cabeçudo" foram discutindo prós e contras e quase ninguém o queria como advogado de defesa. Porém, um, mais equilibrado, que ficara calado todo o tempo, disse:
- Senhores, não há jeito. Ou pegamos o Chico Brazil no laço, ou nosso amigo será julgado sem defensor...
Como não havia outro jeito, foram todos ao bar falar com Chico Brazil e aí levou-se mais umas oito horas de negociação, pois ele não queria pegar a causa de jeito algum, até que, já no último grau etílico, Chico fraquejou e resolveu aceitar o pedido dos amigos para ser o advogado do cabeçudo em seu julgamento.
Por incrível que pareça e para surpresa geral entre os que o conheciam bem, passou toda a semana anterior ao julgamento sem botar uma gota de cachaça na boca ou entregar-se à esbórnia, como lhe era contumaz!
Na hora de defender o Cabeçudo, ele começou assim a sua oratória:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
Quando todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele repetiu:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
Repetiu a frase mais uma vez e foi advertido pelo juiz:
- Peço ao advogado que, por favor, inicie a defesa.
Chico Brazil, porém, fingiu que não ouviu e continuou:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri. E o promotor:
- A defesa está tentando ridicularizar esta corte!
O juiz:
- Advirto ao advogado de defesa que se não apresentar imediatamente os seus argumentos...
Foi cortado por Chico Brazil, que repetiu:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.
O juiz não agüentou:
- Seu moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a justiça é motivo de zombaria? Ponha-se daqui para fora antes que eu mande prendê-lo.
Foi então que o Chico Brazil disse:
-Senhoras e Senhores jurados, esta Côrte chegou ao ponto em que eu queria chegar... Vejam que: se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é meritíssimo, que o promotor é honrado e que os membros do júri são dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me ameaçam de prisão... Pensem então na situação deste pobre homem, que durante quarenta anos, em todos os dias da sua vida, foi ridicularizado, espezinhado e chamado de cabeçudo, por um homem que hoje está sendo apresentado como vítima...!
Cabeçudo foi absolvido e o Chico Brazil voltou pro bar, tornando a entornar as suas cachaças em paz. Aos amigos, que lá chegavam para parabenizá-lo pelo feito, ele sorria e respondia apenas:
- Mais vale ser um Bêbado Inteligente e reconhecido, do que um Alcoólico Anônimo!
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