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Comportamental
Enviado por: Webmaster


A Doença do Poder


Ana Campello

 


      O que caracteriza o exagero, em se tratando de impulsos psiquicos, é a natureza do grau em que estes impulsos se manifestam.  Possuimos os impulsos básicos da fome, da sede, dos instintos sexuais, da agressão ( preservação) e da excreção do que é desnecessário para o organismo.  Nascemos para um modelo dualista de vida. A contínua batalha entre o bem e o mal, o certo e o errado, o ter e o ser, etc... Nesse esquema dual impera o desejo da posse: ou para se dar bem e ser reconhecido como aquele que deu certo, ou para ser visto através de uma cortina de boas impressões(imagens). A posse torna-se um imperativo quando, em verdade, assume-se o TER desnecessário, ou seja, o além daquilo suportavelmente confortável ao uso do proprietário.
 
      Um sonho, semente que brota no coração, tendo a proposta de colorir a vida do sonhador.Todo sonho deveria ser viável, ou seja, estar ao alcance do sonhador.  Não se deve deixar de sonhar, pois o sonho atua como uma espécie de trampolim, jogando o indivíduo à frente, abrindo novas portas, para novas direções e buscas.  Quando a semente do sonho brota no coração e sobe para a cabeça, implantando  rígidas raízes, como fortes e grandes unhas encravadas, fazendo com que o sonhador passe a viver um tipo de "novela" dentro da sua própria realidade, dizemos que o sonho se tornou uma OBSESSÃO.
 
      Todos nós, por vivermos num sistema capitalista, num mundo que incentiva o consumismo, temos o sonho de termos uma parcela de poder em mãos. Este poder se espalha em vários setores da vida: o poder de ser o melhor nos esportes, nos concursos, no trabalho, de ser a melhor mãe e pai, o de ser e obter maior garra de conhecimentos, de ser  e pertencer a crença religiosa preferida por Deus , o poder de ser o mais importante politico e etc...etc.  O poder empresta ao individuo a sensação dele ser indestrutível, não perecivel (ele vence o tempo), de ser apreciado e admirado através da excepcionalidade, já que através desta sensação ele acredita ser um ser diferente, incomum, extraordinário.  Essa capa enebriante faz o indivíduo não ver mais nada à sua frente, a não ser a tensão de querer sempre mais, pois teme, sentindo fortes ansiedades, ficar centímetros abaixo do nível estipulado, já que o seu lugar é o topo.

      Estes centimetros abaixo o deixa preciptar-se na tormenta da dúvida de que, logo ali, perdera seu status.  A força interna do TER oprime cada vez mais e a vida assume a função do quanto mais tem , mais quer.  A diversão, o contato com pessoas e a natureza perdem campo para a posse de manutenção do quadro do poder.   Uma febre que não estanca e a pessoa somente se sente bem quando é vista  através desse invólucro, das etiquetas, dos rótulos que a puseram neste pretencioso pódium.
 
      A mente adoeceu pela fome de poder.  Essa mente constrói guerras se preciso for para sustentar seus interesses no poder.  Essa mente sente, come, dorme sobre o jugo do poder e dessa feita, sentimentos de reconhecimento do outro ficam embotados, por isso, passar por cima de quem quer  que seja tem o mesmo significado que passar sobre um inseto. Afinal -pensa ele - "o mundo foi feito para quem consegue fazer, ser e estar como sou e onde  estou..." - dessa feita, todos os demais são os subjugados.  Esta mente perde o elo da diferenciação. A estereotipia (o que leva a todos serem réplicas e não identidades únicas) predomina e ela gruda na própria e única experiência que ele carrega, que é a posse de mais poder.
 
      O que esta por trás dessa máscara de ferro?  A doença da inferioridade, o sentimento de menosvalia, que ele carrega, lutando contra uma imagem estruturada e alimentada pela idéia que faz de si mesmo (alienação).  É sobre essa ideia, essa imagem, que o pedestal do poder se implanta.  Quando a glória, o vislumbre pelo poder esta em mãos de um estadista, o regime governamental, mesmo embora vestindo a capa da democracia, é de natureza autoritária e tirânica, defendendo necessidades pessoais do governante.

      No campo pessoal, o poder atinge familiares, de formas a ferir, ofender, reprimir a liberdade de ser e viver do outro (vítima), usando como premissa: "faço assim para seu bem, por proteção!"

      A sede de poder tem como aliado a inveja, componente que leva o outro a desejar posses alheias.  Pessoas portadoras dessa doença sente-se feliz e até realizada diante da desgraça alheia.  A felicidade do outro incomoda, logo, quando pode fazer algo para perturbar e fazer o outro ir ao fundo-do-poço, ela faz sem escrúpulos.

      A doenca do poder é gradativa.  Tem que ser detectada na sua instalação, em análise aos sonhos da pessoa e dos métodos utilizados para alcançar estes sonhos.  Depois de programada, instalada e reproduzida a cores dentro do espaço mental, fica difícil de ser trabalhada e modificada, ate porque o indivíduo sente-se pior em ter que lidar com suas reais inferioridades e fraquezas, do que com seu espírito de grandeza exacerbada.  Ele alimenta uma imagem que tem seu PREDATOR. Este invoca forças mentais que o indivíduo desconhece, levando-o por labirintos de destruições alheias.  Estas destruições ele faz por não  reconhecê-las, pois ele está diante exclusivamente das suas intenções em sustentar sua posição.  Aquele que tentar interferir neste processo, denunciando, ou tentando desmontar, pode considerar seus dias contados.

      Todo aquele que vive uma relação doentia com a posse, por certo não vive, não se relaciona bem com a vida e as pessoas.  Passam pela vida correndo sobre um unico trilho (da ambição) e dessa feita tornam-se seres tacanhos, ordinários e miseráveis (a máscara colou na face).  O poder ao extremo maltrata, tornando o individuo anzol, isca e  fisgado, passando a ser um prototipo de gente, na forma de marionete da própria conquista. 

      E, aí vai a pergunta: vale a pena viver dessa forma?


                                Carinho procês!

 
Ana Campello é psicóloga e escritora, residindo atualmente em Hollywood, Califórnia, EUA - e-mail: ana-campello@hotmail.com

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