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Comportamental
Enviado por: Webmaster


Aluga-se um Amigo


Ana Campello

 


      Num vilarejo em que a vida corria dentro dos  pequenos acordos, sem muita esperança de dias melhores, onde a ansiedade tornava as pessoas rudes, pois tinham como resultado dos seus trabalhos uma  quantia irrisória, que somente supria o necessário e eis que, de repente, através de um anuncio de jornal, formou-se um enorme rebuliço social.  A cidade não era mais a mesma. Via-se nos olhares de cada um o brilho da interrogação, pois abriu-se a porta do extraordinário. O tempo todo, somente falava-se sobre o anúncio e... logo, logo, formaram-se grupos de opiniões. 

      Teve quem achasse que isso provinha de um louco, logo não era para se dar crédito.  Outros achavam que viria de alguém que "tomava ácido", "cheirava pó" ou "queimava fumo".  Alguns diziam: "podemos pagar pra ver, pois isso pode ter um fundo de verdade. Ademais, já tá tudo ruim mesmo, pior não pode ficar".

      Nenhum assunto repercutiu tanto naquele modesto vilarejo.  A política local virou e revirou a vida do sujeito de cabo-a-rabo para ver se encontrava algum tipo de desvio de conduta, alguma falcatrua que pudesse prejudicar o dono da proposta, enquanto, por outro lado, eles pudessem tirar algum tipo de proveito.  Só que a ficha do destinador era limpíssima e nada havia que desabonasse o seu caráter - "mas não é possível! Tem que haver alguma coisa que o comprometa!" - diziam os mais abutres, aqueles que querem projetar nos outros o que são, incapazes de reconhecerem em si próprios.

      Ninguém dormia com a mesma tranqüilidade de outrora, instigados em saber se era verdadeira a fonte daquele noticiário estonteante.  Através de palavras objetivas, diretas, onde não cabiam espaços, reticências, ou códigos, assim conferia o anuncio: 

- "ALUGA-SE UM AMIGO, QUE SEJA LEAL, ACIMA DE TUDO VERDADEIRO, QUE SEJA UMA ENTUSIÁSTICA COMPANHIA, QUE ME FAÇA SORRIR MAIS; A ACREDITAR NA VIDA E NAS PESSOAS. O salário inicial é de R$ 10.000,00 ao mês, por 8 horas de AMIGO, mais bônus em horas-extras e benefícios médico, dentário e hospitalar. Cubro qualquer oferta da concorrência e não tenho preferência em ser homem ou mulher. Ligar para OGIMA: 876-54321".
 
      Loucura geral? Quem pagaria pra ver? Mas eis que surge o primeiro candidato. Desconfiado foi logo colocando em cheque a necessidade de contratos assinados, onde as garantias tomassem o lugar dos medos.  Imediatamente foi rejeitado, pois um verdadeiro amigo não suspeita, se entrega.

      Chegou o segundo, perguntando em tom preocupante  sobre o que teria que fazer, pois ele precisaria conhecer o trabalho, tendo como resposta a seguinte assertiva:

- "A que distancia você se encontra de um amigo, se você não consegue enxergar as necessidades dele? Acho que se torna difícil chegar junto com tamanha distancia".

      O terceiro candidato chega em prosas e versos, mostrando o quanto ele sabe e pode fazer e prometendo, tendo ou não tendo, mas prometendo. O outro, assustado, pergunta:

- "Onde você se sentaria, ao lado, na frente, ou atrás de um amigo?"

- "É  claro que ao lado dele, pois um amigo tem que estar sempre ao lado do outro". 

-"Você não preferiria ver as condições do lugar primeiro? De repente, o lado escolhido pode ser um precipício de tormentas e você explora aquele que você diz ser amigo, para dentro dele junto com você".

      E cada um que chegava não cobria os requisitos solicitados.

      Um dia, chegou um viajante que apostou na sua habilidade.  Ao chegar diante daquele homem milionário, porém solitário, foi logo falando:

- "Não sei o que você quer de verdade, mas sei que você é muito exigente. Estará você sendo amigo fazendo assim?".

- "Se eu entendesse de amigo, estenderia esse conhecimento para mim mesmo e não precisaria anunciar a necessidade de um".

- "Mas um amigo não se compra, ou aluga!

- "Na vida tudo tem um preço, por que não um amigo?"

- "Mas você, quando era criança, teve amigos e não precisou pagá-los!"

- "Se eu os tive, eu não os conquistei, pois não os tenho mais. Ademais, em criança, como toda outra, eu queria era estar onde fosse bom para mim, não porque o outro estava lá. Mas... por que você parou no vilarejo? Como viajante, você não tem como caber dentro deste emprego!"

- "Por certo... Só queria, por curiosidade, saber se seria possível alguem se empregar como amigo".

- "Por que não? É um emprego como outro qualquer".

- "Mas para ser um amigo você tem que sentir o prazer de estar, de conviver, de fazer, e isto jamais é trabalho.'

-"Se não fosse trabalho seria mais fácil ter amigos de verdade. E vejo que você não aceita que eu possa ter a dificuldade em fazer amigos, logo você não está sendo amigo".
 
      O tempo passa e o que parecia  ser de imediata solução, toma proporções gigantescas. O homem rico já não mais esperava conseguir comprar um verdadeiro amigo.

Certo dia, bate a sua porta alguém que anunciou o desejo de preencher a vaga. O homem sorriu, pois sentiu renovarem as esperanças. A pessoa dizia não querer receber dinheiro algum, pois ela tinha tanto quanto ou mais, logo, mais dinheiro não seria solução e sim problema. O homem se admirou e pensou:

- "Será que amigo só funciona em termos de igualdade? Se ela precisasse do dinheiro manteria viva uma amizade?" 

Diante disso, ele ficou dividido. E a pessoa diante da dúvida avistada continua falando e diz o quanto suas vidas se parecem, do quanto ela fez dinheiro e não fez amigos e que, diante disso, eles podiam juntar as partes sofridas de ambos.

A idéia não agradou, pois ambos passariam viver de solidão a dois.
 
      E o homem tira o anuncio, desistindo da idéia de alugar um amigo.  Até que um dia, cruza o seu caminho alguém que lhe sorri sem nada dizer.  Ele retribui o riso e pergunta:'

- "Quem é você?"

      Simplesmente um nome e dito, com o sorriso mantido.  E ele pergunta:

- "Quer ser meu amigo?"

- "De novo? Mas eu já sou".

- "Como já sou? Eu nem lhe conheço...!"

- "Não faz diferença! Estamos nos conhecendo agora. E parece que lhe checo de muito".

- "Você veio pelo anuncio?"

- "Ah! então é você o autor do anuncio?! Só podia ser! Sabia que você é muito interessante, tal qual o anuncio?"

- Você me acha interessante?"

- Sim. Apreciei sua coragem em abrir a guarda da sua individualidade, dando margem às pessoas desabonarem sua integridade."

- Mas isso não tem nenhuma importância pra mim,  diante de uma preciosa amizade."
 
O sorriso se amplia e com ele a  expressão sincera:

- "Pôxa! eu vou torcer que você encontre o que procura, pois um sonho merece ser vivido e eu quero que você entre no céu que criou."

- Só os amigos torcem. Acho que encontrei um neste momento."

- "O que vale é você ser feliz, pois fará feliz quem de você se aproximar. Eu estou feliz por estar com você neste momento, mesmo que não lhe veja nunca mais. Este é o momento, logo, perpetua-se o que se confere como felicidade. Um dia a gente se encontra, no outro se afasta, mas o coração permanece."
 
      E assim o homem passou a considerar a importância de se fazer companheiros por onde passasse. Que reter, só, seria um caminho para o sofrer. Que doar faz bem ao coração e que não se cobra  o que se ganha. Que ele poderia cobrar pela comida, mas não pelo ato de comer. Que podia cobrar, ou pagar por estar com alguém, mas não pelo querer estar. Que somente o amor quando dividido se multiplica. E que o verdadeiro amigo, primeiro tem que  ser amigo de si próprio,  pois somente damos aquilo que nos tornamos. Isso feito, poder dar de si antes de pensar em si.
 
                                            Carinho procês!

 
Ana Campello é psicóloga e escritora, residindo atualmente em Hollywood, Califórnia, EUA - e-mail: ana-campello@hotmail.com

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