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Cr�nicas do Dia-a-Dia
Enviado por: Webmaster


E Foi Descobrido um "Brazil"


Sergio Miranda

 


      Foi em uma bela tarde de sol, lá pelos idos de 1500, que o jovem Pedro Álvares entrou em casa esbaforido e disse à simpática senhora que usava lentes de contato "Varilux" verdes:

- Mamiiiiy... Põe um lanchinho reforçado na merendeira, que eu vou partir pra descobrire o Brazil!

      Sem tirar os olhos da TV, onde passava mais um capítulo de "A Escrava Isaura", ela respondeu calmamente:

- Deixa de bobagens, filhinho... O Brazil já foi descoberto por aquele menino, filho do Giovanni do galinheiro, o Colombo, aquele que botou ovo de pé sem quebrá-lo...

- Não mammy... o Cris descobriu foi a América...

- Então, por que cargas d'água estás a americanizar o nome, a dizeire Brazil, com "Z"? Além do mais não precisas de merendeira, que já‘stá fora de moda, pois no Brazil tem um monte de Mc Donald's pra comeires um hamburger ou um xistudo. E quanto à roupa, pegue o meu cartão da C&A e compre um jeans pra viagem, q'suja menos...

- Mas mamiiiy... eu queria tanto abalar Porto seguro com um modelito exclusivo...

- Nem mas, nem meio mas... Além do que, não sei qual serventia tem descobrir um país que, quando fizer 506 anos, estará entregue nas mãos das multinacionais, com bancos cobrando juros escorchantes, um governo apelidado de "papa-tudo" e políticos sem escrúpulos, se vendendo por trinta dinheiros. Vamos acabar é virando piada por lá....

- Pô mamiiiy... se liga na história: se eu não descobrir o Brazil, pra onde D. João VI irá fugir do Napoleão, de onde poderemos tirar tanto ouro e madeira? Quem pagará a nossa dívida externa com a Inglaterra e para onde vamos levar os negros que escravizamos? A senhora detesta pretos e para cá não poderemos trazê-los. Além do mais, que povo mais irá aceitar sustentar a ganância do FMI?

- Vá lá, vá lá... mas depois não digas que não avisei. Aquilo irá transformar-se num tremendo saco d'gatos: todos os corruptos vão entrar p'ra pulítica e ainda irão botar tua cara numa nota que não valerá um tostão, em pouco tempo. Mas, se é assim que queres... que seja!

      E Pedrinho foi.... ou melhor, veio!

      Sua esquadra era formada por três naus e dois submarinos. Submarinos  estes  que não seguiram  viagem, pois suas tripulações abandoram-nos em pânico, tão logo começaram a afundar. Para não se perderem, na viagem, guiavam-se pelo dirigível da Goodyear, que vinha da europa pra cá, pra fazer as imagens aéreas do sambódromo para a TV Globo.

- TERRA À VISTA!!! - gritou o marujo, na gávea.

      Todos correram esbaforidos à amurada, porém não viram terra alguma, nem à vista, nem a prazo para pensionistas e aposentados sem consulta ao SPC.

- Stás biruta, ó pá? - perguntou Cabral

- Stou não, capitão, olhe pr'este mar... Cheio de garrafas pet de Coca-Cola, peixes boiando à balde e uma baita mancha negra d'ptróleo derramado por navios e refinarias. Só podemos ter ch'gado ao Brazil!!!

      De fato, após passarem por algumas toneladas de peixes mortos, garrafas pet e muito óleo, divisaram a praia, onde homens, mulheres e crianças, enfeitados com pinturas e penachos dançavam alegremente.

- Vejam quanta genitália d'snuda, ó pá... chegamos em pleno carnaval... - observou Pero Vaz de Caminha.

- Q'carnaval q'nada, ó imbecil! Não sabes que já'stamos  em  abril  e q'carnaval é em fev'reiro?

- Mas esqueces, ó meu capitão, que stamos a chegáire na Bahia, ond'é carnaval o ano inteiro?

      As naus ancoraram em Porto Seguro... Mas não tão seguro assim, pois ainda não haviam terminado a manobra de fundeamento, quando três curumins-de-rua abordaram os tripulantes:

- Pode tomar conta, mister? "Is ônli fáive dólar"... Se não pagar a gente arranha o casco...

      Fingindo não ver ou ouvir os curumins-de-rua, Cabral (classe média, sabe...) foi o primeiro a desembarcar. A desembarcar e a gritar, apontando um indiozinho que corria para a mata:

- S'corro!!!! Aquele pivet'zinho nativo "bateu-me" o alforje!!!

- Isto não é nada, meu capitão! - gritou um marujo -  Enquanto bob'ei, olhando pr'uma india p'lada que deu-me bola pra me distraíre, roubaram-me o ráio do toca-fados da caravela...

- Alguém tem'q tomar uma providência!!! Quero faláire com o cacique!!! Onde está o cacique desta terra? - perguntou Cabral, a um índio velho que a tudo observava, já bolando uma nova piada de português.

- O cacique??? A coisa mais difícil no mundo é ele parar por aqui... Ainda mais agora que está de jatinho novo, o "Aero Peri", qualquer coisa é motivo pra viajar pros outros países. Ele nem sabe que aqui está se roubando tanto...

- Mas isso não pod'ficar assim, irei queixar-me ao Bispo!!!  Irei queixar-me ao Bispo!!!!

- Que Bispo? O Sardinha???  Vai dar não...  Cumemo ele inda hoje, no almoço, fritinho no azeite de oliva . Uma delícia... uma caipivódica antes, pra abrir o apetite e depois uma cerva bem gelada... e da "Boa"... a daquela morena...

- Bem'q minha mãezinha avisou-me... Isto é Brazil!!! E por faláire nisto: porq'isto aqui se chama Brazil, ó pá?

- Não é Brazil com Z, portuga. É com "S" e é uma sigla internacional que quer dizer: Bravos Rapaces Americanos, Silenciosamente Irão Levando....

      A tribo, trouxe, então, aos visitantes, em oferenda, um fruto, para eles sagrado, de casca polida  e que prometia saciar a fome de todos: o "congresso"

      Os recém-chegados, após examinarem-no, demonstrando desprezo e asco, jogaram-no fora.

      Estupefatos com a desfeita, os índios correram a recolher os pedaços do fruto. E, só então, descobriram que o congresso, no qual tinham tanta fé e que deveria, pelo que rezava o folclore, ser isento de impurezas,  estava completamente podre.

 
Sergio Miranda é Web Designer, Jornalista, Professor Universitário na Cadeira de Computação Gráfica e Diretor do Jornal Carranca

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