Um conto africano narra a história de dois viajantes que sedentos encontram no caminho um vendedor de vinho de palma.
Pedem a ele que lhes dê um pouco da bebida e o vendedor diz: Darei o vinho àquele cujo nome eu gostar mais. Vamos, digam-me os vossos nomes.
Um deles falou:
- Meu nome é: De Onde Venho.
E o outro:
- O meu é: Para Onde Vou.
O vendedor pensou e disse:
- Gostei mais de "De Onde Venho" e é para ele que darei o vinho. Imediatamente começou uma enorme discussão entre eles, pois o que se sentiu prejudicado tentava argumentar a seu favor.
Uma autoridade que passava pelo local levou-os a um juiz - que nas estórias faz julgamentos sábios, com rapidez e não se mete em encrencas - que lhes deu a decisão:
- O vendedor está errado, pois "De Onde Venho" não podemos tirar mais nada, mas "Para Onde Vou" poderemos tirar muitas coisas. O vinho deve ser dado para "Para Onde Vou", pois ele representa o futuro.
Contei essa história porque estamos chegando em janeiro, cujo nome, deriva de Janus, deus romano, zeloso de importantes trabalhos. Janus era o guardião das portas do céu, cuidava da agricultura - o que será que ele pensaria sobre a discussão a respeito da soja transgênica? E da jurisprudência? E a sua opinião a respeito das nossas leis e do comportamento de alguns dos nossos magistrados?
Janus tinha duas caras, uma olhava para trás e outra para a frente. Como podia enxergar tudo ao mesmo tempo, ensinava aos mortais: - "olhem para o passado sem rancor ou mágoa e procurem apenas aprender com ele. E para o futuro, somente para se precaver e evitar o que de ruim possa vos acontecer".
Como sempre, nos finais de ano fazemos as nossas reflexões. Fiz algumas e tomo a liberdade de sugeri-las: será que, para o próximo ano, teremos paciência para continuar agüentando essa ladainha sobre o passado administrativo dos governantes anteriores? Suportaremos ainda mais essa cantilena a respeito de uma tal herança maldita, de corrupções sem fim (muitas sem provas) e das péssimas condições ]que os governos anteriores deixaram aos que estão no cargo? Será que estaremos dispostos a perder nosso precioso tempo ouvindo a mídia, incentivada pelos políticos, martelar nossos ouvidos a respeito de assuntos sérios, como a transgenia da soja e o preço dos pedágios - sobre cujos impostos e taxas embutidas ninguém fala -, sendo tratados na esfera político-partidária-eleitoreira?
Será que assistiremos passivos ao show de pirotecnia dos nossos parlamentares que nada fizeram na reforma tributária a não ser aumentar impostos? Essas, na ótica do conto africano, são atitudes de "De Onde Venho" e já não nos servem mais. E olhando o passado vamos verificar que nas promessas de campanha e nos discursos de posse, como sempre, venderam ao nosso povo, embrulhada em papel de seda cor-de-rosa, a velha conhecida e, graças a Deus, já começando a ser desacreditada, esperança.
E de novo, tentam fazê-la reaparecer na forma de um prometido "espetáculo de crescimento", que chega nos acenando e dizendo: - "No ano que vem, sim, seremos felizes e realizados. Haverá consumo e emprego para todo mundo. É só vocês aceitarem na já pesada canga, um pouco mais de carga tributária. É só ficarem bonzinhos e alheios ao vício da corrupção que corrói as suas mais sagradas instituições".
Mas é com o "Para Onde Vou" que o povo brasileiro deve se preocupar e olhar com atenção afinada. Pois, enquanto perdemos nosso tempo ouvindo discussões e balelas que nos desviam a atenção, chineses e coreanos, cujo calendário é mais antigo do que o nosso, avançam a passos largos rumo a um progresso invejável. Eles souberam arrumar suas deficiências estruturais - educação foi uma delas.
- Se você acha caro o custo da educação, experimente o da ignorância", Thomas Jefferson já dizia.
Nós que temos tudo para ser tudo não conseguimos ser nada. O Brasil potencial não dá conta do seu potencial, emaranhado que está e trôpego em intermináveis discussões sobre o seu "De Onde Venho".
E outra vez, janeiro vai marcar o nosso culto à esperança, essa grande falsária, usada largamente nos discursos dos políticos e das autoridades.
Papai Noel, para o próximo "Para Onde Vou", digo ano novo, traga-nos ações consistentes em vez de esperança pois, dessa, nosso saco já está cheio.
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